05 de Dezembro de 2008

A Grande Crise dos Anos 30

 

É um tema difícil de explicar, embora pareça muito simples. O sistema da Receita Federal dos Estados Unidos, como fruto do capitalismo em pleno desenvolvimento, foi criado em 1913. Salvador Allende, que todos recordamos como homem da nossa época, já tinha feito uns 15 anos de idade.

 

   

A Primeira Guerra Mundial estourou em 1914, quando o príncipe herdeiro do império austro-húngaro, no coração do centro-sul da Europa, foi assassinado em Sarajevo. O Canadá ainda era colónia da Grã-Bretanha. A libra esterlina inglesa tinha o privilégio de ser a moeda de pagamento internacional. Sua base metálica era o ouro, como era, fazia mais de mil anos na capital do império romano do Oriente, Constantinopla.

 

 

Os que encetaram as lutas sangrentas contra os crentes muçulmanos no Oriente Próximo sob pretextos religiosos, eram cavaleiros feudais dos reinos cristãos da Europa, cujo propósito verdadeiro era controlar as rotas comerciais e outros fins mundanos mais grosseiros, que em outra ocasião poderia abordar.

 

No fim da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos participaram dela, desde 1917, dois anos depois do afundamento do navio "Lusitânia" — carregado de passageiros norte-americanos que partiram de Nova Iorque — por torpedos disparados de um submarino alemão, com absurdas instruções de atacar um navio que portava as bandeiras de um país distante, rico e potencialmente poderoso, cujo governo, de posições de suposta neutralidade, procurava pretextos para participar da guerra com a Grã-Bretanha, a França e seus aliados. O ataque aconteceu no dia 7 de Maio de 1915, ao atravessar o estreito de mar que medeia entre a Irlanda e a Inglaterra. Nos 20 minutos que tardou em soçobrar, muito poucos passageiros conseguiram abandonar o navio; 1.198 pessoas que ainda estavam a bordo perderam a vida.

 

O crescimento da economia norte-americana depois daquela guerra se manteve de maneira sustentada, exceto as crises cíclicas que eram resolvidas pelo sistema da Reserva Federal (FED) sem maiores conseqüências.

 

Em 24 de outubro de 1929, dia lembrado pela história dos Estados Unidos como a "quinta-feira negra", foi desatada a crise econômica. O Banco da Reserva de Nova Iorque, com sede em Wall Street, como outros grandes bancos e corporações, segundo o critério do teórico de direita e reputado economista norte-americano Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia (1976), reage "por instinto", adotando as medidas que considerou mais corretas: "injetando dinheiro na circulação." O Banco da Reserva de Washington, acostumado à preeminência de seus critérios, conseguiu impor finalmente o critério oposto. O secretário do Tesouro do presidente Hoover apóia o Banco da Reserva Federal de Washington. O de Nova Iorque termina cedendo. "Mas o pior ainda estava por acontecer", declarou Friedman, que explica com mais clareza que ninguém, entre eminentes economistas, vários deles de tendência oposta, a seqüência dos fatos, quando escreveu: "Até o outono de 1930, a recessão da atividade econômica, apesar de ser grave, não se viu afetada por dificuldades financeiras ou pelos pedidos dos depositantes, tentando retirar os depósitos. O caráter da recessão mudou drasticamente quando uma série de falências no meio Oeste e no Sul dos Estados Unidos minaram a confiança nos bancos e trouxeram consigo numerosas tentativas de converter os depósitos bancários em efetivo."

 

"Em 11 de dezembro de 1930, foi fechado o Banco dos Estados Unidos. Corresponde à data crítica. Era o maior banco comercial que até essa data tinha falido na história norte-americana."

 

Apenas em dezembro de 1930, fecharam suas portas 352 bancos. "A FED poderia ter chegado a uma solução melhor comprando títulos da dívida pública em grande escala no mercado aberto."

 

"Em setembro de 1931, data em que Grã-Bretanha abandonou o padrão-ouro, aquele seguiu uma política, inclusive, mais negativa."

 

"O sistema reagiu após dois anos de dura repressão, aumentando o tipo de juro a um nível nunca atingido em sua história."

 

É preciso levar em conta que Friedman reflete um critério que ainda prevalece nos setores oficiais dos Estados Unidos quase 80 anos depois.

 

"Em 1932, a FED, pressionada pelo Congresso, concluiu seu período de sessões e cancelou logo depois seu programa de compras."

 

"O episódio final foi o pânico bancário de 1933."

 

"O medo se intensificou no interregno entre Herbert Hoover e Franklin D. Roosevelt, eleito em 8 de novembro de 1932, mas cuja posse não foi até 4 de março de 1933. O primeiro não desejava tomar medidas drásticas sem a cooperação do novo presidente, enquanto Roosevelt, por seu lado, não queria assumir nenhuma responsabilidade até não empossar."

 

O episódio me lembra o que acontece hoje com o presidente Barack Obama, eleito em 4 de novembro nas eleições de há menos de um mês, que sucederá Bush em 20 de janeiro de 2009. Só mudou o interregno, que na época de 1930 durava não mais de 117 dias e hoje, não mais de 77.

 

No momento de maior auge econômico, assinala Friedman, existiam nos Estados Unidos até 25 mil bancos. No começo do ano 1933, a cifra diminuiu para 18 mil.

 

"Quando o presidente Roosevelt decidiu terminar com o fechamento bancário, 10 dias depois de ter começado ― disse Friedman ―, pouco menos de 12 mil bancos foram autorizados a abrirem suas portas, aos quais se juntaram apenas 3 mil mais tarde. Portanto, no total, uns 10 mil dos 25 mil bancos existentes em 1929 desapareceram durante esses quatro anos, mediante processos de falência, fusão ou liquidação."

 

"O fechamento das empresas, a redução da produção, o desemprego crescente, tudo alimentava o nervosismo e o medo."

 

"Apos iniciada a depressão, estendeu-se a outros países e ocorreu, com certeza, uma influência refletida; outro exemplo da retroalimentação tão onipresente numa economia complexa", concluiu Friedman.

 

O mundo de 1933, do qual ele falou em seu livro, não se parece em nada ao que hoje existe, absolutamente globalizado, constituído por mais de 190 Estados representados na ONU, cujos habitantes estão todos ameaçados por riscos que os cientistas, mesmo os mais otimistas, não podem ignorar, e que um número crescente de pessoas conhece e compartilha, inclusive proeminentes políticos norte-americanos.

 

A repercussão da crise atual se constata nos esforços desesperados de importantes líderes mundiais.

A agência Xinhua informa que o presidente Hu Jintao, da República Popular da China, um país de crescimento sustentável nos últimos anos acima de dois dígitos, advertiu ontem que a "China se estava sob uma crescente pressão por sua enorme população, recursos limitados e problemas do meio ambiente". Trata-se do único país que sabemos que possui reservas em divisas que beiram quase US$2 trilhões. O dirigente chinês enumera "uma série de passos imprescindíveis para proteger os interesses fundamentais da população e preservar o meio ambiente na estratégia de industrialização e modernização da China". Assinalou, por último, que, "com a propagação da crise financeira, a demanda mundial de produtos reduziu-se consideravelmente".

 

Com estas palavras do líder do país com maior população do planeta, não é preciso proferir mais argumentos sobre a profundidade da atual crise.

 

 

Fonte: Granma

publicado por subterraneodaliberdade às 13:32

Camarada ! Obrigado e parabens pelo blog,...que consulto mais como um Site por força das matérias de grande interesse e cultura disponibilizadas.

Abraço!
Jorge a 6 de Dezembro de 2008 às 16:57
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