05 de Julho de 2009

 

DEUS LHE PAGUE...

 

     A propósito das peças de Joracy Camargo, um notável crítico do Brasil evocou "a arte de diálogo" de Dumas Filho e de Oscar Wilde. Esse justo louvor merece-o, decerto, o grande comediógrafo, mas é apenas um dos aspectos do seu excepcional talento, desse raro talento que Procópio Ferreira, o intérprete admirável de Joracy  Camargo, não hesita em qualificar de "génio".

 

     Ouvindo representar qualquer das obras de Joracy, ou lendo-as no sossego duma hora consagrada ao espírito e à beleza, reconhecemos realmente a presença do "génio", isto é, da capacidade de criar vida, de comunicar vida e vibração a todos os personagens que surgem e se movem no palco.

 

     O público português, que aplaudiu com entusiasmo esse comovente Deus Lhe Pague... sabe que Joracy Camargo reúne em suas comédias a mais prestigiosa técnica aos mais elevados e nobres pensamentos sociais. O seu teatro pode e deve chamar-se, sem o menor exagero, "teatro de ideias", teatro que não contente em divertir ou distrair, mas que pretende e consegue sempre erguer a alma do ouvinte ou do leitor acima das mesquinharias e dos egoísmos quotidianos.

 

     Ressuma, transcende a humanidade, resplende de inteligência e vibra de profunda, embora discreta emoção contagiosa. Deus Lhe Pague... teve centenas de representações no Brasil, foi representada na Argentina em quatro teatros ao mesmo tempo, assim como obteve idêntico êxito de todos os países da América Latina onde se contam muitas edições da comédia já famosa, que foi adoptada oficialmente nas Universidades norte-americanas, como livro auxiliar no ensino da língua portuguesa.

 

     Procópio chama a Deus Lhe Pague... a maior obra cultural do teatro brasileiro. Opinião de singular importância, vindo, como vem, do actor exímio, que não tem rival no seu país nem em toda América do Sul.

    

    Excerto de Deus Lhe Pague...

 

Mendigo: Na sua opinião. O que o povo quer é a coisa mais simples deste mundo.

 

Péricles: Qual é?

 

Mendigo: A supressão de uma palavra do dicionário.

 

Péricles: Qual?

 

Mendigo: Miséria!

 

Péricles: Só isso?

 

Mendigo:

 

(..)

 

Péricles: E o egoísmo?

 

Mendigo: O egoísmo é o grande obstáculo! É o castelo feudal em cuja arca está guardada essa palavra abominável mas necessária - Propriedade!

 

Péricles: Se não me engano, pela sua maneira de falar, o senhor é comunista!

 

Mendigo: Psiu! Silêncio! Comunismo é palavra que quer entrar para o dicionário com escalas pela polícia...

 

Péricles: Então, é por isso que toda a gente tem medo dessa palavra?...

 

Nancy: E haverá razão para tanto medo?

 

Mendigo: Há! O comunismo é como aquele boneco de palha de que a gente tem medo quando é criança.

 

Nancy: Não entendi.

 

Mendigo: Havia em minha casa, quando eu era pequeno, um boneco de palha, com o qual minha mãe me obrigava a dormir mais cedo. Eu tinha um terror pânico do boneco. Um dia, distraidamente, sentei-me em cima do manipanso.

 

Nancy: Que horror!

 

Péricles: Deu um salto, assustadíssimo?!

 

Mendigo: Não, Quando percebi que o esmagara, retirei-o do suplício, examinei-o bem e compreendi, por mim mesmo, que o boneco de palha era incapaz de fazer mal às crianças. Ajeitei a barriguinha dele e tornei-me o seu maior amigo.

 

Nancy: E sua mãe?

 

Mendigo: Minha mãe ficou meio encabulada. Mas fui incapaz de chama-la mentirosa. - O comunismo é o boneco de palha das crianças grandes.

publicado por subterraneodaliberdade às 22:54
pesquisar neste blog
 
Julho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
arquivos
Nota Subterrânea
Os artigos públicados da autoria de terceiros não significa que o subterrâneo concorde na integra. Significa que são merecedores de reflexão.
links
blogs SAPO