19 de Junho de 2011

 

Tempos difíceis, Tempos de Luta

 

Os discursos do Presidente da República e de António Barreto, no 10 de Junho, constituíram dois indecorosos exercícios de uma hipocrisia só possível vinda de quem possui muita tarimba na matéria.

O apelo de Cavaco Silva para o regresso aos campos – feito por quem foi carrasco e coveiro da agricultura portuguesa nos dez anos em que foi primeiro-ministro – só é explicável à luz de um profundo desrespeito pela inteligência e a sensibilidade dos portugueses.

Do mesmo modo, a referência aos supostos «riscos incalculáveis» que correríamos se o programa da troika ocupante não fosse cumprido pela troika colaboracionista, não passa de uma tosca tentativa de procurar esconder dos portugueses que o cumprimento do programa da troika é que é, ele sim, um incalculável passo em frente no afundamento do País - pelo que rejeitá-lo constitui um dever patriótico.

O Presidente da República diz o que lhe vai na alma quando clama que «é Portugal inteiro que tem de se erguer nesta hora decisiva» e que isso implica «inevitáveis sacrifícios» - já que, com isso, o que quer dizer é que os sacrifícios, como sempre, são para os trabalhadores e o povo, ficando os lucros, como sempre, para o grande capital.

De Barreto, bastaria dizer que o seu nome ficará para sempre ligado àquele que foi o momento mais sombrio vivido depois do 25 de Abril: a destruição da Reforma Agrária, com a brutal repressão, os assassinatos, afrontando a Constituição da República Portuguesa – a Constituição que Barreto, no seu ódio visceral a tudo quanto cheire a Abril, quer agora liquidar.

Sublinhe-se que a crítica de Barreto aos políticos assenta como uma luva tanto em quem a faz como em quem convidou o falante.

De resto, tratou-se de um discurso velho, bacoco, pateta – mas profundamente reaccionário - que atinge a suprema agonia quando a ridícula criatura decide passar a tratar Portugal por tu...

Enfim, falaram, ambos, como políticos da política direita que, de facto, são. Com responsabilidades diferentes, mas em ambos os casos grandes, enormes, no estado a que Portugal chegou.

  

Entretanto, e enquanto protagonizavam tão estranha comemoração do dia de Portugal, os problemas de Portugal e dos portugueses agravavam-se, precisamente por efeito da política que ambos defendem e da acção dos políticos de que eles são protótipo e paradigma.

E agravar-se-ão mais e mais se o programa das troikas for por diante.

Como sublinhou o Comité Central do PCP, tempos difíceis esperam os trabalhadores, o povo e o País; tempos aos quais é necessário responder com a dinamização da resistência, com a intensificação e ampliação da luta de massas, com o prosseguimento da luta pela ruptura com a política de direita e por uma política e um governo patrióticos e de esquerda.

A ofensiva contra direitos dos trabalhadores e dos cidadãos anuncia-se brutal – e é necessário enfrentá-la com determinação.

O velho objectivo da direita e da reacção de liquidar a Lei Fundamental do País, roubando-lhe tudo o que nela resta de Abril, está aí – e é imperioso rechaçar decididamente esse intento, mobilizando para isso todas as forças democráticas e patrióticas,

Desenha-se a ofensiva no sentido de criar uma legislação eleitoral que eternize, sem margem para qualquer sobressalto, não apenas a vitória dos partidos do sistema em todos os actos eleitorais, mas também a simplificação da sua representação institucional maioritária – e é forçoso dar a resposta adequada a tal ofensiva.

Os preparativos para a destruição de tudo o que de positivo consta na legislação laboral, estão em marcha – e é vital travar a acção predadora do grande capital e dos governantes seus lacaios.

Avança a entrega do que resta da independência nacional nas garras do grande capital internacional – e é necessário, com a luta, fazê-la recuar e derrotá-la.

A ofensiva ideológica, intensa, vai intensificar-se ainda mais - e é indispensável enfrentá-la, combatê-la, derrotá-la.

O agravamento das já graves condições de vida da imensa maioria dos portugueses é, mais do que uma perspectiva, uma certeza assegurada pelo futuro governo Coelho/Portas – e há que lutar mais e mais pela defesa dos direitos dessa imensa maioria.

 

Neste quadro, o reforço do PCP apresenta-se como questão crucial.

E mostra a realidade que, não obstante o cenário sombrio decorrente da forte ofensiva da política de direita, existem condições para que esse reforço se concretize, para a afirmação do Partido, para a intensificação da sua acção, para o cumprimento do papel que historicamente lhe está destinado.

Os resultados obtidos pela CDU nas eleições do dia 5, pelos vários aspectos positivos de que se revestem, vieram dar mais alento e mais confiança na luta e na capacidade de resistência dos trabalhadores e do povo.

Assim, reforçar o Partido – orgânica, interventiva e ideologicamente – apresenta-se, nas circunstâncias actuais, não apenas como uma necessidade imperiosa, mas como uma possibilidade real.

Os tempos que aí vêm exigem um PCP mais forte – e o colectivo partidário comunista responde a essa exigência intensificando o debate interno, desenvolvendo a actividade de massas do Partido, recrutando e organizando novos militantes, particularmente nas empresas e locais de trabalho, reforçando a ligação às massas – e arranca em força para o exaltante processo de construção da Festa do Avante!, a maior, a mais bela e a mais fraterna de todas as festas – por isso só possível de construir por quem tem como objectivo maior da sua luta a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados.

 

Fonte: Jornal "Avante!"

publicado por subterraneodaliberdade às 10:57
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