18 de Julho de 2011

Armando Castro,

Economista, advogado, investigador, professor da Faculdade de Economia do Porto, de que foi Presidente do Conselho Directivo, Armando Castro deixou uma vasta obra publicada, com centenas de trabalhos nos domínios da História, Economia Teórica e Aplicada e Teoria do Conhecimento.
Grande lutador antifascista, corajoso e sempre solidário, era militante comunista desde 1935, destacando-se como um revolucionário coerente até à data do sua morte, ocorrida no dia 16, com 80 anos de idade.
A Direcção da Organização Regional do Porto do PCP, evocando a memória de homem da ciência e da cultura e cidadão exemplar que foi Armando Castro, lembra que este perfil lhe mereceu ter sido galardoado com várias distinções, entre as quais a Medalha de Ouro da Cidade do Porto.
Em mensagem de pesar enviada à família de Armando Castro, o Secretariado do Comité Central do PCP afirma que «o país e a cidade do Porto perdem um português e homem de cultura com uma enorme grandeza intelectual e humana, mas o património da sua vida e da sua obra continuarão a inspirar todos quantos se batem pelo progresso da ciência e da cultura e pela sua estreita vinculação com o progresso social e humano.»
Por sua vez, a direcção do Sector Intelectual de Lisboa do PCP, lembrando a vastíssima obra científica de Armando Castro, atribui-lhe a responsabilidade pela formação de gerações de economistas e destaca «o impacto da sua militância pelas grandes causas da resistência antifascista e da liberdade, a que dedicou toda a sua existência combativa».


«Um pensador e investigador incansável»

 

«O País perde uma figura de referência, de um pensador e investigador incansável». Foi nestes termos que a Assembleia da República expressou, em voto de pesar, o elogio pela vida e obra do Professor Armando de Castro, falecido no dia 16, com 80 anos de idade.
No texto, apresentado por deputados comunistas e aprovado por unanimidade, enaltecido é o percurso do «activo opositor da ditadura», que entrou para as fileiras do PCP em 1935, e que foi impedido de leccionar até ao 25 de Abril.
«Depois da Revolução de Abril, passou a exercer a docência da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, de que foi Director até à sua jubilação, em 1989», recorda o texto do voto, no qual a Assembleia da República «expressa o seu pesar pelo falecimento» de Armando Castro e endereça à sua família«os mais sentidos pêsames».
Da figura ímpar de Armando Castro, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra e em Economia pela Universidade do Porto, destacado é igualmente o facto de ter dedicado a sua vida à investigação científica, de que resultou uma «vasta e profunda obra», designadamente nos domínios da História Económica e da Epistemologia».
Testemunhadas são ainda «as suas enormes qualidades de investigador», bem como a «importância do seu trabalho de muitas décadas», aspectos reconhecidos por todos os que o conheceram e com ele privaram. «Entre muitos livros, estudos e artigos – sublinha o texto – impõe-se salientar a sua obra em numerosos volumes sobre a Evolução Económica de Portugal, do século XII até ao século XX, e a Teoria do Conhecimento, de que estão publicados oito volumes».


In Memoriam

Por Oscár Lopes


Ao cabo de    vários meses de um lento apagamento irreversível, Armando    Castro, quase imobilizado, morreu no dia 18 de Junho, a    poucos dias de completar os 79 anos de idade.

Formado em    Direito com excelentes classificações, teve de acumular o    seu trabalho de investigação com o exercício de uma    profissão de advogado, e ainda em 1973 denunciava a    proibição de um seu curso particular superior, de    teorização da história económica; mas basta prestar    atenção ao seu largo currículo de estudos publicados, para    se descobrir a sua estreita dependência dos seminários e    encontros, a que se ficou devendo os meios e os arquivos    ingleses, franceses, hispânicos, e até colecções    regionais de documentos que lhe permitiram completar,    continuar ou corrigir as obras clássicas, e que em    particular desmentem a sua directa e incrítica sequência    directa de sínteses, que tanto seriam (pretensamente,    segundo ouvi) os textos de Herculano, Gama Barros, Oliveira    Martins, Lúcio de Azevedo ou Jaime Cortesão, etc, que ele    aproveita e critica de modo tão livre e independente. O    leitor facilmente encontra referências à Torre do Tombo, a    arquivos estrangeiros ou regionais, que a incapacidade de    alguns críticos dificilmente sentiam ao alcance de um    advogado sem privilégios académicos – é que, a cada    passo, tinha de adiar o trabalho profissional de advogado e    preparar seminários ou conferências, tinha que escrever    artigos de pretexto comemorativo, para se manter em dia e    poder e travar conhecimento com especialistas, e de utilizar    um bom ensejo local de investigação por sua conta. Foram    pelo menos dois decénios de um esforço de que é natural    poucos se sentirem capazes e que só uma disciplina férrea    lhe permitiu manter, dos anos trinta aos anos setenta, quando    o 25 de Abril lhe bateu à porta na figura já gasta mas    intrépida do Professor Ruy Luís Gomes, que lhe abriu as    portas de uma Faculdade.

Dispôs só de 13    anos para, num ambiente novo e incerto, patentear aos alunos    a sua reflexão, os seus dossiers e as suas fichas    – que lá ficaram, na Faculdade, como trabalho para    continuar e ultrapassar: a vida renova-se cada dia, e a    ciência, quando represa, renova-se mais ainda.

Apenas uma    indicação bibliográfica sumária, que aponta no sentido do    avanço patente das suas próprias reacções: Revolução    Industrial em Portugal no Século XIX, 3.ª edição,    1976 (1.ª, 1945); A Evolução Económica em Portugal nos    Séculos XII a XV, 1964-1970, nove volumes, seguido do    10.º Limiar, 1965, e do 11.º, Caminho, 1980, obra várias    vezes reeditada com variantes e lançada e mantida por    teimosia quase heróica de Augusto Costa Dias; História    Económica de Portugal, I e II, Caminho, 1978-1981; Estudos    de História Sócio-Económica Portuguesa, 1972    (constituída em grande parte de fichas extratadas do Dicionário    da História de Portugal). A partir de 1975 publica uma    série sobre a Teoria do Conhecimento Científico. A    revista Vértice, entre outras, contém artigos    comemorativos sobre Gil Vicente, Camões, Fernão Mendes    Pinto, etc, e devem-se-lhe dois estudos que focam as    condições ideológicas da História da Literatura    Portuguesa, entre 1890-1910 e 1925-1985, numa história    então publicada em fascículos. E publicou três breves e    luminosos ensaios sobre a génese de Portugal e sobre a    Revolução de 1385, baseados num curso que organizou para a    Universidade Popular do Porto. Além destes dados, que fazem    sentir a necessidade de uma Bibliografia que dê conta das    numerosas reedições refundidas, ou simplesmente revistas e    actualizadas da sua obra, e de artigos dispersos em numerosas    revistas, o que tudo caberia bem num In Memoriam, ou    acto público de homenagem – Armando Castro deixa, na    lembrança de quantos o conheceram, a imagem de um    incomparável amigo, sempre atento, sempre disponível, e    tão incapaz da mera verrina de endereço pessoalista, como    discretamente irónico, e desprendido do valor das suas    próprias intervenções.

Fonte: Jornal "Avante!"

publicado por subterraneodaliberdade às 13:38

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